A Casa das Belas Adormecidas – Yasunari Kawabata #resenha

Título: A Casa das Belas Adormecidas
Autor: Yasunari Kawabata
Ano: 1961
Páginas: 128 páginas
Editora: Estação Liberdade

“Eguchi afrouxou o braço que apertava a garota com força, abraçou-a com carinho e ajeitou seus braços nus de modo que ela o enlaçasse. E ela o abraçou docilmente. O velho manteve-se nessa posição e permaneceu quieto. Fechou os olhos. Aquecido, sentia-se num deleite. Era quase um êxtase inconsciente. Parecia compreender o bem-estar e a felicidade sentidos pelos velhotes que frequentavam a casa. Ali eles não sentiriam apenas o pesar da velhice, sua fealdade e miséria, mas estariam se sentindo repletos de dádiva da vida jovem. Para um homem no extremo limite da sua velhice, não haveria um momento em que pudesse se esquecer por completo de si mesmo, a não ser quando envolvido por inteiro pelo corpo da jovem.”

Eguchi é um “velho” de 67 anos, impotente e infeliz que frequenta uma ‘casa de tolerância’ dedicada a idosos impotentes para abusar de garotas drogadas e adormecidas. O sujeito vai lá, e passa a noite com uma das meninas virgens – sempre adolescentes – e nuas. E nessas visitas a esse local, ele discorre sobre a vida e a morte, sobre memórias, sobre a criação de sua família, seu casamento, a impotência, a velhice e a masculinidade.

Obviamente, eu não gostei nem um pouco. A descrição de Kawabata das curvas e texturas, das nuances e cheiros e tons do corpo feminino realmente é muito sublime e delicada, a maneira como Eguchi questiona a própria vida e a velhice fatal é bem poética. Mas a narrativa divaga demais, é muito repetitiva e maçante. E o tema! Gente, o maldito tema! Achei barra pesada demais. Não importa o contexto inserido, a banalização e romantização do estupro de incapazes (e pedofilia) não me desce nas goelas de jeito nenhum.

A Casa das Belas Adormecidas

Eu compreendo que a intenção de Kawabata era dissertar sobre a impotência, a velhice, a masculinidade e todas as frustrações e humilhações que os homens pensam que passam quando ficam velhos, e seu modo de lidar com isso – na verdade, seu modo de não conseguir lidar com essa fase da vida. Reconheço que naquela cultura em que está inserido, e em 1961 – que foi quando ele escreveu – realmente esse tema não seria tão censurável como hoje. E de repente, se eu tivesse lido há alguns anos atrás, eu mesma não teria tantos problemas assim em digerir esse romance.

Porém, aceitar a mulher ser tratada como objeto, sendo desumanamente drogadas a ponto de dormir profundamente a noite toda pra ficar a mercê de velhotes, num papel de boneca de borracha inerte, continuamente abusadas. Eu, Shepps, não consigo lidar com isso numa nice, numa boa. Me enjoa, me enoja. Ainda mais o livro sendo em primeira pessoa e não havendo nenhum personagem que se oponha à situação das meninas, o leitor – EU – só tem a opção de estar alinhado com o narrador, com o homem abusador, sendo até cúmplice desse absurdo.

Muita gente elogia muito Kawabata, eu mesma o escolhi pra entrar em dois projetos: o Projeto Lendo o Mundo – Japão e o Projeto Nobel visto que Kawabata foi o primeiro japonês a ser galardoado com o Nobel de Literatura (1968). Sendo esse A Casa das Belas Adormecidas tão intragável assim, talvez eu dê uma nova chance e leia algo mais desse autor em outra oportunidade (depois que passar o ranço). No momento, eu só posso dizer que detestei de verdade.

 

Nota

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Já leram? O que acharam?

Se tiverem um outro ponto de vista, por favor, compartilhem comigo! Eu adoro compreender novos olhares, e estou ansiosa pra ver essa história por um ponto de vista que eu possa não ter enxergado. Sua opinião é sempre muito importante pra mim.

Beijos e até a próxima <3

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