Desonra – J. M. Coetzee #resenha

Título: Desonra
Autor: J.M. Coetzee
Ano da edição: 2015
Ano de publicação: 1999
Páginas: 246
Editora: Companhia das Letras

Largado numa cadeira de plástico, em meio ao fedor das penas de galinha e maçãs podres, ele sente seu interesse pelo mundo escoando de dentro dele, gota a gota. Pode levar semanas, pode levar meses até secar inteiramente, mas está secando. Quando isso terminar ele será como uma casca de mosca numa teia de aranha, quebradiço ao contato, mais leve que uma casca de arroz, pronto para sair flutuando.

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África do Sul

David Lurie é um professor de Literatura e Linguagem de 52 anos, divorciado 2 vezes com uma filha já adulta chamada Lucy. Ele mora na Cidade Cabo e dá aulas na universidade. Semanalmente tem seus encontros com Soraya, uma prostituta negra e jovem, que ele usa apenas para saciar as vontades do corpo.

Sua opinião, que ele não ventila, é que a origem da fala está no canto, e as origens do canto na necessidade de preencher com som o vazio grande demais da alma humana.

Quando Soraya o dispensa, David Lurie começa seu caminho descendente em direção à desgraça. Se envolve com Melanie, uma de suas alunas 32 anos mais jovem que ele. Embora o comportamento de Lurie seja muito abusivo, e no meu entendimento, não tenha havido um consentimento propriamente dito, o angu só deu caroço por causa de suas respectivas posições na universidade. Melanie o denuncia para a reitoria, ele acaba sendo investigado, não aceita se desculpar e acaba exonerado do cargo.

Contanto que não tenha de me transformar numa pessoa melhor. Não estou preparado para reformas. Quero continuar sendo eu mesmo.

A fim de espairecer e começar a escrever sua ópera sobre Lorde Byron, ele se exila na casa de sua filha no interior. Lucy tem uma pequena propriedade rural, cultiva flores e legumes para vender na feira, e cuida de animais abandonados ou por temporadas. Petrus é seu vizinho, trabalha com ela na fazenda enquanto cuida de sua própria terra.

Para não se sentir entendiado demais, David ajuda na fazenda, limpa e colhe, instala coisas, ajuda na feira. E arrumou um trabalho voluntário na clínica veterinária de uma amiga de Lucy. Lá ele ajuda com os casos críticos e ajuda a sacrificar animais condenados, além de cuidar da incineração deles após a morte.

Durante a estadia de Lurie, três bandidos invadem a fazenda, roubam uma série de coisas e estupram Lucy. A partir desse fato, a vida de todos eles muda mais uma vez, e David se vê mergulhando ainda mais fundo no poço de desonra em que se transformou sua existência.

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Desonra

Mamãe Pata nadando na superfície da represa, o peito estufado de orgulho, enquanto Uni, Duni, Tê, Salamê acompanham empenhados, confiantes de que enquanto ela estiver ali estarão a salvo de todo mal.

O livro é doloroso. Trata de temas doídos e duros. Traz um personagem principal obviamente culpado, passando por uma ‘penitência’ impossível de não se apiedar. Em momento nenhum Coetzee justifica ou apoia o comportamento machista e babaca de David Lurie, mas o apresenta de maneira tão crua, tão sofrida que é muito difícil não simpatizar, mesmo sabendo que não devemos.

O tema central do livro é o assédio e a violência sexual, sendo perpetrados tanto por Lurie quanto contra sua filha. Porém, não menos importante é o sexismo e a questão de gêneros. Lucy sabe que está ‘pagando o preço’ por ser mulher e querer seu pedaço de terra, Petrus sabe que é assim que deve ser.

Ao longo da narrativa, David Lurie vai perdendo sua identidade. Vai se sentindo velho e inadequado, incapaz de ajudar ou de modificar as coisas. Quando não consegue impor suas vontade a Lucy, quando não tem mais a autoridade que gostaria de ter sobre as decisões dela, ele fica ainda menor.

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… Para mim quem cuida do bem-estar dos animais é um pouco como um certo tipo de cristão. É todo mundo tão alegre e bem-intencionado que depois de algum tempo você fica com vontade de sair por aí estuprando e pilhando um pouco. Ou chutando gatos.

É muito bonito de ser ver o que Coetzee nos mostra aqui. A forma como ele apresenta o roteiro e os personagens, como ele constrói e desconstrói as personalidades. Vamos ser sinceros: há um bom tempo eu não leio nada tão bacana no quesito complexidade de personagens – na minha opinião de 2 centavos, é o que carrega a história nas costas. Nenhuma trama se sustenta bem com personagens medianos ou fracos. Personagens complexos, intensos, bem trabalhados são capazes de fazer um roteiro mixuruco ter ares de grandioso. E Coetzee faz isso muito bem aqui.

Há a questão do desabrochar autoral do próprio David, que depois dos acontecimentos, consegue se desapegar da visão romântica da relação entre Byron e Theresa, e consegue encontrar uma história digna de ser contada na velhice de Theresa. O que mostra sua própria aceitação da velhice. Compreendo o artifício utilizado, concordo que é contextualizado de forma brilhante, mas achei ligeiramente chatinho e maçante, e confesso que era essa hora que eu conseguia largar o livro.

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No geral, achei genial. Envolvente, triste, doloroso. Muito pesado. Eu chorei, eu me indignei, fiquei puta da vida, abandonei o livro para não conseguir deixar pra lá, e pegá-lo 15 minutos depois. Eu sonhei com a história. Eu me peguei tentando me concentrar em escrever um artigo ou assistir algo na TV e meus pensamentos voltando incessantemente para o enredo. Isso sim, meus amigos é um livro bem escrito! Isso é o que a Shepps aqui busca em uma história.

J.M. Coetzee

Eu havido escolhido esse livro para ser um participante do Projeto Lendo o Mundo no quesito África do Sul. E não podia ter me surpreendido mais.

Desonra ganhou o Booker Prize de 1999, e  J. M. Coetzee, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2003. “Numa votação realizada em 2006 pelo jornal The Observer o livro foi identificado como “o maior romance dos últimos 25 anos” escrito em Inglês e fora dos Estados Unidos“.

Tem um filme com roteiro adaptado chamado Disgrace, estrelado por John Malkovich, que acabei de adicionar à minha watchlist. Assim que eu assistir, eu posto um review ou um drops pra vocês.

Nota

5-estrelas

Onde Comprar

Vocês já leram esse? O que acharam? Já leram algum outro livro do J. M. Coetzee?

Se vocês já tiverem resenhado esse livro, posta o link aqui nos comentários para que eu visite! E se não, me conta aqui nos comentários o que você achou ou se pretende ler! A sua opinião é muito importante para mim!

Beijo <3

Projeto Lendo o Mundo

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