Quarenta Dias – Maria Valéria Rezende #resenha

Título: Quarenta Dias
Autor: Maria Valéria Rezende
Ano da edição: 2016
Ano de publicação: 2014
Páginas: 245
Editora: Alfaguara**

** A Editora Alfaguara é um selo da Editora Objetiva desde 2006 e publica tanto autores contemporâneos como clássicos da literatura universal.

E aqui estou vomitando nestas páginas amareladas os primeiros garranchos com que vou enchê-las até botar tudo pra fora e esconjurar toda essa gente que tomou conta de mim e grita e anda pra lá e pra cá e chora e xinga e gargalha e geme e mija e sorri e caga e fede e canta e arenga e escarra e fala e fode e fala e vende e fala e sangra e se vende e sonha e morre e ressuscita sem parar.

Quarenta Dias

Me deparei com esse livro ao fazer uma busca pelos ganhadores do Prêmio Jabuti do último ano (2015), visto que estou tentando ler mais fora da caixa, conhecer coisas ‘novas’, dar prosseguimento para o nosso Projeto Lendo o Mundo. Não podia ter acertado mais. É um livro muito bom, diferenciado das coisas que costumamos ler por aqui, intenso, reflexivo, forte.

Quarenta Dias - Maria Valéria Rezende

Alice é uma jovem senhora, ‘viúva’ de um desaparecido político, e mora em João Pessoa – Paraíba. Sua vida está mais ou menos estabilizada, é professora de línguas, sua filha – Norinha – mora com seu marido no Rio Grande do Sul e a vida segue de maneira pacata.

Até que Norinha decide que é hora de ter um filho, porém como ela e o marido – Umberto – são muito ocupados em suas carreiras acadêmicas, não teriam tempo de cuidar da criança. Alice é então pressionada por toda a sua família de maneira incisiva a se mudar para o sul afim de tomar conta do futuro neto.

Já enchi páginas e não achei o começo. Deixe de embromar, Alice, confesse que o broto desse espinheiro que cresceu dentro de você foi a revelação do egoísmo da sua filha. Foi isso. Diga à Barbie o que você está sem coragem de dizer a si mesma. Diga.

Sem conseguir mais forças para negar e se esquivar, Alice decide desistir de sua própria vida, e cede, se mudando para o Rio Grande para fazer a vontade de sua filha única. Ao chegar lá, um imprevisto acontece e as coisas não saem conforme o script. Ela entra em uma espiral de depressão e crise nervosa, ansiosa por estar ‘sozinha’ em um lugar desconhecido e preconceituoso com nordestinos, aborrecida pela falta de consideração e egoísmo da sua filha, arrependida de ter desistido de si mesma.

Quarenta Dias - Maria Valéria Rezende

Ela recebe uma ligação de uma parenta da Paraíba, acerca do filho de uma amiga – Cícero Araújo – que tinha ido trabalhar em Porto Alegre e havia desaparecido sem dar notícias, de modo que sua mãe estava preocupada. Será que Alice não poderia ir na favela onde ele supostamente morava e pedir informações sobre o rapaz para confortar o coração de sua mãe?

Alice percebe nessa situação uma deixa para espairecer e andar um pouco, sair do apartamento claustrofóbico e das garras controladoras de Norinha. E vai atrás de Cícero Araújo. Sem lenço, sem documento e sem a menor vontade de voltar para aquela prisão que ela ainda não conseguia chamar de casa. E assim passa 40 dias nas ruas, andando a esmo, dormindo nas praças, se misturando com mendigos e moradores de rua.

Querido Diário

Esse livro vem como um diário, um desabafo. Porque Alice – assim como sua xará do país das maravilhas – caiu no buraco atrás do coelho branco, e aquela quantidade intensa de informações novas, vivências, experiências a estava sufocando.

A única coisa que tenho ânimo pra fazer agora. O único jeito possível de livrar-me deles, expulsá-los do espaço que ocupam dentro de mim e recuperar minha própria presença é reduzi-los a tinta e papel e encerrá-los numa gaveta, ou tacar fogo pra sempre.

A narrativa de Maria Valéria Rezende é muito interessante. A forma como ela coloca os eventos é bem crível, é bem compatível com o que a gente sente quando está engasgado com um sentimento e não sabe como verbalizar. Genial o jeito com que ela expressa isso.

Durante a mudança, ela encontra um caderno da Barbie, e ela o utiliza como diário quando chega de suas andanças. E como se sente solitária, ela conversa com a boneca na narrativa, utilizando algumas expressões em inglês como ‘silly doll‘ e etc. Eu confesso que não curti isso. Achei bastante forçado, achei fora de contexto para uma senhora que viveu até na rua.

Em cada capítulo novo há uma citação ou uma reprodução de um dos papéis que ela foi acumulando ao longo dos dias, anotando pensamentos e citações. Eu gostei bastante do recurso, mas achei as quotes escolhidas meio fracas, meio desconexas do tema. Mas o recurso é fabuloso.

Quarenta Dias - Maria Valéria Rezende

Saí, em busca de Cícero Araújo ou sei lá de quê, mas sem despir-me dessa nova Alice, arisca e áspera, que tinha brotado e se esgalhado nesses últimos meses e tratava de escamotear-se, perder-se num mundo sem porteira, fugir ao controle de quem quer que fosse.

Outra coisa que me incomodou ligeiramente foi a falta de pontuação em vários finais de capítulos. Entendo o recurso também, mas tenho um ligeiro TOC e fico com intensa angústia com aqueles pontos faltosos.

Nossa, Shepps, o livro ganhou o Jabuti de 2015 e você tá gongando? Você é chata! Não, gente! Não tô gongando, esses foram os pequenos detalhes dos quais não gostei. A história em si é muito boa!! Bem organizada, bem estruturada. Os insights filosóficos que ela tem sobre a vida e sobre o que a levou até aquele ponto. Sobre a criação da sua filha, o que ela poderia ter feito de ‘errado’, sobre as bobeiras do mundo moderno, sobre a diferença entre a vida no nordeste e no sul, as diferenças sociais, o preconceito.

Não me decepcionei em nenhum momento com o livro, ou com a autora. Entrei nele sem nenhuma expectativa, porque não sabia a sinopse quando comprei, não sabia como seria a escrita da Maria Valéria. Acho que por isso me surpreendi tão positivamente.  Conforme eu ia avançando, não conseguia mais parar, porque embora você saiba o ‘final’ – sabe que ela volta pro apartamento em segurança – há uma aura de ‘gente, o que essa mulher vai arrumar?‘, uma compaixão que ela desperta no coração da gente, a sororidade, a vontade de ajudar.

E fica uma reflexão velada sobre as vezes que somos abusivos ou egoístas com a nossa mãezinha, as ingratidões que a gente comete ao longo do caminho com a pessoa que se sacrificou para nos dar o melhor. Sentiiiiimentaaaaal eu soooou! HAHA

Nota

4 estrelas

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