[Ruído] Trilogia The Game – Anders de la Motte #resenha

Título: [Ruído] Trilogia The Game – Volume 2
Autor: Anders de la Motte
Ano da edição: 2015
Ano de publicação: 2011
Páginas: 320
Editora: DarkSide Books

Há cerca de quatro semanas atrás eu encontrei um telefone celular no trem […]: o aparelho me convidou para jogar um Jogo de Realidade Alternativa, onde os limites entre a fantasia e a realidade eram confusos. Pequenas tarefas que você tinha que realizar, e filmá-las com o telefone ao mesmo tempo. E essas tarefas lhe davam pontos, […] onde seu desempenho poderia ser julgado por pessoas assistindo on-line. E você ganhava dinheiro, se fosse bem.

Alerta

Atenção, leitores do meu Brasil varonil!

Vou tentar ir resenhando o livro como sempre faço, sem revelar partes importantes ou que comprometam a experiência do leitor e logicamente, sem spoilers. Porém, como esse livro é a segunda parte de uma trilogia, quem não leu o primeiro, vai acabar tomando um ou outro spoiler por motivos óbvios, então, o aviso está aqui! SPOILER ALERT para quem não leu o primeiro livro. Para quem já leu, tá tranquilo e tá favorável.

spoiler-alert[O Jogo]

O primeiro livro da Trilogia The Game [O Jogo] traz a história de HP (Henrik Peterson) encontrando um celular no trem, e recebendo um convite para fazer parte de um jogo – conforme nota-se na citação no começo do artigo. Inicialmente, o Jogo pedia para ele pichar determinados muros, ameaçar determinadas pessoas. E ele vai upando sua pontuação, até ser o vice colocado.

O Jogo o instrui a jogar uma bomba em um determinado carro, ele joga. Acontece que o carro era de sua própria irmã – Rebecca Normén – que estava fazendo a vigilância de um comboio de certos políticos. Ele dá uma surtada e resolve que quer sair, obviamente o Mestre do Jogo não permite, ele começa a investigar e a trama do livro se desenvolve a partir disso.

Conforme eu havia dito no vídeo da TBR de Julho, eu não curti o livro. Comprei porque a ação da DarkSide com vários booktubers tinha sido extremamente interessante, simulando O Jogo, onde os participantes tinham que fotografar ou filmar coisas em dado prazo, etc.  Achei o livro mal escrito, a trama fraca, difícil demais de acreditar, muito forçado. Entretanto, a revelação de quem é o Mestre do Jogo no final do primeiro livro me fez ficar interessada na continuação.

Eu me deixei levar pela vibração, a sensação de que eu tinha um público de admiradores no espaço cibernético. Que me respeitava por todas as coisas que eu estava fazendo. E como o pobre viciado em aprovação que sou, me deixei ser arrastado sem protestar. Mudei tanto o limite do que eu pensava que era aceitável que eu não podia mais enxergá-lo.

Resolvi dar mais uma chance para o Anders de la Motte, e comprei o segundo livro.

[Ruído] The Game

[Ruído]

A história começa 14 meses depois, com HP viajando pelo mundo, cheio da grana, com milhares de identidades falsas, tentando se esconder do Mestre do Jogo. Rebecca Normém – a irmã dele – passa por uma situação complicada ao ser guarda-costas de uma política sueca em Darfur, acaba rolando uma investigação por má conduta, ela é afastada da força policial e alguém começa a fazer fofoca sobre ela em um fórum da internet.

Uma das acompanhantes de HP – Anna Argos – enquanto ele estava em Dubai é supostamente assassinada, e ele acorda de uma bad trip de drogas com a camisa ensopada com o sangue dela, e a polícia federal o prendendo. Consegue passar mais ou menos incólume pela investigação, e é deportado de volta para a Suécia. Ao chegar em seu país, aproveita que seu melhor amigo Magnus Sandstrom (Manga) está viajando pelo Oriente Médio, usa sua identidade para ser admitido na ArgosEye – a empresa da Anna, para investigar as circunstâncias de sua morte, e para verificar se sua intuição estava certa e se a morte de Anna estaria mesmo relacionada com O Jogo.

A vantagem que as autoridades e os que estão no poder tiveram por quase quatrocentos anos em relação à informação foi demolida.  A informação já não flui de cima para baixo, mas em qualquer outra direção também.

A ArgosEye supostamente faz controle de mídia para grandes empresas. Isso inclui monitoramento de palavras-chave, desaparecimento de links que denigrem a imagem dos clientes, criação de trolls que comentam e compartilham conteúdo dos clientes, influenciando assim a opinião geral. É comandada com mão de ferro por Phillip Argos (ex-marido de Anna) que reina no lugar – todos os funcionários o adoram como a um semi-deus.

HP – que agora se passa por Manga – consegue emprego nessa empresa, e uma semana depois já ganha uma promoção. Começa a investigar a ArgosEye, e conclui que a firma está sendo usada pelo Jogo para encobrir o rastro do Jogo na internet. Enquanto isso Rebecca Normén se envolve com um homem abusivo que tenta estuprá-la, enquanto está sendo seguida por algum hater que posta diariamente fofocas e calúnias sobre ela, enquanto é ameaçada e seguida por um ex-amante, enquanto dá um gelo em seu namorado traído.

Ambos estão se desdobrando para salvar suas peles e suas carreiras, investigando pessoas na internet para solucionar seu próprio mistério. Até que mais uma vez, suas histórias se cruzam.

Em outras palavras, os seres humanos modernos, amantes da liberdade, adoradores da integridade, se mapeiam até o pequeno detalhe mais privado. Nem mesmo George Orwell poderia ter previsto um cenário como este…

[Ruído] The Game

Anders de la Motte

Na esperança de que a história pudesse melhorar, por incrível que pareça, ela deu um jeito de ficar ainda pior. O primeiro livro é algo mais clubinho da morte, mais feito por pessoas afim de lesar as outras e essas coisas. Esse segundo livro envolve autoridades mundiais, empresas multimilionárias, acionistas, governos – esse tanto de gente jogando um Jogo ou usando O Jogo para manipular pessoas.

Eu acredito que isso realmente já aconteça nos dias de hoje, mas de uma forma muito mais convencional chamada Publicidade. Daí haver um Mestre do Jogo controlando todo esse fluxo de informações, matando e machucando pessoas para estragar a vida de um alguém específico, eu acho muito difícil de engolir.

Estamos ficando cada vez mais dependentes em ter outras pessoas nos dizendo o quanto somos inteligentes, ou atraentes, ou espertos. Que vida maravilhosa nós construímos, com nossos queridos companheiros e filhos maravilhosos, e quão felizes nossas vidas são em comparação com a de outras pessoas.

Se esse fosse o único problema dessa trama, a falta de credibilidade, eu até relevaria. Por exemplo, Rebecca estava dentro de um carro vigiando o prédio de seu agressor, quando seu irmão – que estava desaparecido sem dar notícias – cai desse mesmo prédio em cima do carro dela. Que coincidência providencial para um país imenso como a Suécia. Ou o amigo de HP – Manga – estar viajando com fins religiosos exatamente pelo tempo certo que ele precisa para usar sua identidade. Essas coisas teriam sido relevadas se Anders de la Motte tivesse escrito uma boa história.

Mas não. Ele abusa de referências bobas e nerds em momentos de seriedade. Sai gente desconhecida de todo lado para se envolver intensamente com a história a troco de nada. O jeitão descolado de HP, usado como alívio cômico só serve para deixar o personagem ainda mais superficial. Por falar nisso, a construção de complexidade dos personagens passou totalmente em branco. Não há um traço de personalidade nos indivíduos da história. O caráter de Normén, que havia sido satisfatoriamente delineado no primeiro livro, é completamente desconstruído nesse, a deixando fútil e promíscua.

Eu dedico um parágrafo inteiro para discutir sobre a figura problemática de Rebecca Normén. Ela é uma mulher que foi severamente abusada pelo namorado Dag, até que ela o empurra da sacada, ele morre. O irmão assume a culpa e vai preso no lugar dela. Excelente profissional, super preocupada com o irmão. Isso no primeiro livro. Nesse, ela passa 14 meses sem ligar para o irmão, arruma um namorado meia-boca para traí-lo com um carinha super abusivo usando o apartamento desse irmão desaparecido. Não bastasse essa sopa de baboseiras, ela aceita ir para o apartamento de um cara que ela não conhece mas que tem uma ligeira aura de força, parecido com Dag – o cara que ela empurrou da sacada porque abusava dela. GENTE QUE ISSO? CADÊ A COERÊNCIA? CADÊ A PESQUISA DE CAMPO? CADÊ?

Calma, Shepps. Respira. Relaxa. Já passou!

Além disso, achei a tradução bem ruim também. O que o autor não forçou a barra em alguns trechos, o tradutor resolveu forçar.

De ponto positivo, eu só consigo ressaltar a edição da DarkSide. Capa dura, bem diagramado, bem editado, folha amarelinha, letra boa. Como vocês podem ver nas fotos, tem algumas imagens bacanas no ínicio do livro. Eles mandam junto com o livro um marcador de páginas em formato de celular. Muito legal. Muito inventivo.

[Ruído] The Game

O que posso falar de bom da narrativa de Anders de la Motte, é que com o recurso de ir intercalando os trechos de HP e Rebecca, você se sente bastante preso aos acontecimentos, ansioso para saber o que vai acontecer em seguida. Dessa forma, a leitura fica bastante fluida, bastante rápida.

Honestamente, não sei MESMO se vou ler o terceiro. O que vocês acham?

Nota

2-estrelas

Onde Comprar

E vocês já leram? O que acharam? Vão ler o terceiro (Bolha)?

Se vocês já tiverem resenhado esse livro, posta o link aqui nos comentários para que eu visite! E se não, me conta aqui nos comentários o que você achou ou se pretende ler! A sua opinião é muito importante para mim!

Beijo <3

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