Violent Cases – Neil Gaiman e Dave McKean #resenha

Título: Violent Cases
Autor: Neil Gaiman
Ilustração: Dave McKean
Ano da edição: 2014
Ano de publicação: 1987
Páginas: 64
Editora: Aleph

Quais são suas memórias de infância? Você lembra que seus pais eram gigantes? Lembra-se do casaco que comprou para ir à festa de aniversário da menina que não gostava de você? Você se lembra de se consultar com o osteopata de Al Capone?

1987

Neil Gaiman escreveu esse conto em meados dos anos 80, durante uma reunião da Novíssima e Fulgurante Antologia da HQ Britânica – que tanto ele quanto Dave McKean foram recrutados para produzir e que nem chegou a nascer – e o apresentou em uma oficina literária em Milford. A pessoa certa para desenhar nas lacunas em que ele havia criado era McKean.

Neil e Dave começaram a desenvolver o enredo do que seria Violent Cases – sendo indiretamente influenciados por Alan Moore e Bill Sienkiewicz – inicialmente para publicar em 5 páginas para a revista Escape – que reunia autores e quadrinistas independentes que não se encaixavam nas editoras da moda, como Marvel, DC e 2000 AD.

Violent Cases

Depois de um tempo trabalhando juntos, naquela aura mágica de estar criando algo realmente novo para a época, o resultado de 44 páginas ainda interessava Paul Gravett (editor da Escape) e foi publicado no final 1987, originalmente em preto e branco.

Violent Cases era experimental e sem gênero definido – um misto de realidade, memórias e fantasia – revelando emoções íntimas e sutis do cotidiano, não apenas fantasia e heróis.

Graças ao novo público que busca obras de conteúdo interessante e de alta qualidade, os autores não precisam mais agrilhoar-se às demandas do mercado de super-heróis. – Alan Moore

Nessa edição lindíssima da Aleph, de 2014, podemos encontrar:

  • Introdução de Paul Gravett, da edição de 1997;
  • Introdução de Alan Moore, da edição original de 1987;
  • Introdução de Neil Gaiman, da edição original de 1987;
  • Posfácio de Neil Gaiman, da edição de 2003;
  • 6 Capas alternativas de edições coloridas.

A impressão é em papel couchê e a capa em papel supremo. O cheirinho é típico de HQ’s mesmo, uma mistura de tinta de impressora com plástico Hahaha alok cheiradora de livros ataca novamente, e a única coisa que me incomodou é que a revista é um pouco maior que o normal, de modo que ela não cabe bonitinha de pé na estante, tem que ficar de ladinho. Além disso, pelo preço e pelo ‘luxo’ que a Aleph quis apresentar, uma capa dura cairia MUITO bem.

Falamos tudo o que queríamos: uma HQ para quem não lia HQ; que não tivesse super-heróis; nem ficção científica, nem elementos escancarados de gênero; que pudéssemos mostar aos amigos, e que nossos amigos pudessem ler e, se tivéssemos sorte, respeitar. – Neil Gaiman

O Que Aconteceu com as suas Memórias?

A história é sobre memória e sobre a passagem do tempo.

Violent Cases

O narrador, de meia idade – que é a cara do Neil Gaiman, mas que há 98234798476 polêmicas na internet sobre se é ele de fato ou não – conta um ‘causo’ de sua infância, quando o pai dele deu um safanão e acabou machucando seu braço. Nisso ele vai a um osteopata (que eu googlei e parece que é um tipo de medicina alternativa e usa técnicas manuais para diagnosticar e tratar problemas ósseos ou musculares) que atendia Al Capone na época da Lei Seca.

O menino fica com aquilo na cabeça, com a grandiosidade de ser atendido por um ex-mafioso, pergunta seu pai algumas coisas e fantasia outras, de modo que o narrador conta tudo de forma muito confusa e sem nexo; além de o narrador criança ter várias outras preocupações como seu pânico do mágico que sempre estava nas festinhas infantis ou com o sobretudo que seu pai mandara fazer no alfaiate e que não ficava pronto nunca ou com a preocupação das crianças em não querer participar da ‘dança das cadeiras’ ou de outras brincadeiras em grupo que nos obrigam a ser sociáveis; além de o narrador adulto ter outras preocupações, como se lembrar se o médico era polonês ou americano, como passar as informações adequadas ser parecer bêbado ou chapado, ou como tudo aquilo se confunde na cabeça dele de forma que ele mesmo não consegue ser coeso.

Violent Cases

Mas leitor, entenda bem, a falta de coesão ou de conectividade da história não é de maneira alguma um defeito, não é uma falha da narrativa. É um truque habilidoso do Gaiman para nos inserir no tema da graphic novel: nossa memória, e o que o tempo pode fazer com ela.

Mesmo não envolvendo literatura fantástica ou o universo criado tão magistralmente por Neil Gaiman, Violent Cases é uma viagem louca demais! Haha

A cronologia da história é bem confusa, com flashes de quando o autor era criança, com conversas sobre o passado do osteopata – da época em que ele atendia Al Capone -, e com insights filosóficos do narrador no presente, se confundindo sobre a aparência dos personagens, divagando sobre experiências com luzes que ele jura que aconteceram.

Enfim, daquele jeitinho Gaiman de ser.

As ilustrações são apenas INCRÍVEIS! Os traços de McKean estão crus, e não foram editados nem lapidados. O tom da publicação é majoritariamente sépia, com toques de azul e vermelho quando há certo drama, ou um bocado de sangue, né, porque estamos falando de mafiosos e Al Capone.

Violent Cases

E vou ser bem sincera, muito mais cativante que o texto em si, são os textos de introdução e prefácio das edições anteriores que a editora Aleph compilou para essa edição. O do Alan Moore contextualizando a fase em que a produção de HQ’s se encontrava quando a Escape publicou Violent Cases pela primeira vez é de vibrar, é de sair por aí mostrando para os outros: “Mermão, lê isso aqui que esse home escreveu! Olha que home extraordinário”.

Esta HQ trata do tempo e da memória, e o tempo passou. Tanto tempo que a memória nos prega peças, e aquele jovem que acende o cigarro nos primeiros quadros não é o eu de meia-idade que parou de fumar dez anos atrás. Mas ele e Dave fizeram algo muito bom há bastante tempo, e ainda me orgulho deles. – Neil Gaiman

Nota

5 estrelas

Eu super recomendo a leitura dessa graphic novel. Primeiramente por causa do enredo que é instigante e é apresentado de um jeito bastante diferente, inclusive, na minha opinião humildona, acho que o tema dessa história acaba servindo de escopo para o que o Gaiman acaba apresentando em O Oceano no Fim do Caminho. Segundamente, pela oportunidade de ter contato com um material de início de carreira de dois monstros da literatura ‘nerd’, ainda mais numa edição tão bacanuda e luxuosa.

Violent Cases

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Beijo <3

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